domingo, 27 de julho de 2014

By Roberto Mapplethorpe- fotografo norte americano*

*Nudez da alma*


O poeta, independentemente de educação, idade, sexo e preferências, permanece no seu coração o herdeiro espiritual da humanidade dos primórdios. Explicações científicas sobre o mundo não o impressionam muito. Ele é um animista, um fetichista, que acredita nos poderes secretos adormecidos em todas as coisas, e está convencido de poder mexer com essas forças com a ajuda de um punhado de palavras bem escolhidas. O poeta pode até ter recebido um ou outro título com distinção e louvor, mas no momento em que se senta para escrever um poema, seu uniforme da escola racionalista começa a pinicar sob os braços. Ele se retorce, bufando, abre primeiro um botão, depois outro, até arrancar a roupa de uma vez, expondo-se diante de todo mundo como um selvagem que leva uma argola no nariz. Isso mesmo, um selvagem. Do que mais se pode chamar uma pessoa que fala em versos com os mortos e os não-nascidos, com as árvores, os pássaros, e até mesmo com abajures e pernas de mesa?


*Wisława Szymborska*

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Art de Michelangelo*


senhor,
Torna-me louco, irremediavelmente louco,
Como os poetas sem palavras para seus poemas,
As mulheres possuídas pelo amor proibido
Os suicidas repletos de coragem perante o medo de viver,
Os amantes que fazem do corpo a explosão da alma.

Dá-me, Senhor, o dom fascinante da loucura
Impregnado na face miserável do pobre de Assis,
Contido nos filmes dionisíacos de Fellini,
Resplandecente nas telas policrômicas de Van Gogh,
Presente na luta inglória de Robin Hood.

Quero a loucura explosiva, sem a amargura
Da razão ética das pessoas saciadas à noite pela TV,
Da satisfação dos funcionários fabricantes de relatórios,
Dos discursos políticos cegos ao futuro.

Faz de mim, Senhor, um louco
Embriagado pelo teu amor,
Marginalizado do rol de homens sérios,
Para poder aprender a ciência do povo
Em núpcias com a cruz que só a fé entende,
Como um louco a outro louco.


Frei Betto*