domingo, 20 de julho de 2014


(...)Cavo na concavidade das minhas mãos, a ausência dorida e funda das tuas.

Lilia Tavares*



Carta VI

Nada será diferente do que foi, mas outro tempo virá. Aquele em que será necessário eu te chamar pelo nome. Não adiantarão os poemas ou qualquer canção de amor. Nossas carnes em combustão darão o sinal do apocalipse. Eu te antevejo em todos os espelhos. Os girassóis atônitos propagarão o desenlace. Breve seremos uma nova geografia, um mapa a ser incorporado as cartografias. 
Tenho sede das tuas digitais.

assis freitas*

Um silencio angustiante, que seus próprios medos abafam...

Brihsa*





SARRAF


Seh M. Pereira

.
.
.
.
Descortino os olhos 
das lágrimas que 
cobria-os;

.
e uma velha 
nova

estação ressurge.. Cada mão, 
um alvo; cada

alvo, um 
apedrejo; cada 
apedrejo,

.
.
um santo..

.
.
Cada flor, um 
despetalamento; cada 
pétala, uma 
interrogação; cada 
ponto, um reza..

.
.
E uma nova 
velha 
estação, lentamente, 
esvai-se;

.
.
seguro as imagens 
na retina

para que não fujam..
Ajoelho-me onde 
os galhos 
jazem

mortos e rezo..
.
.
Ouço as vozes do 
vento 
erguidas num canto erudito; flores 
pegajosas de sangue 
expõem a 
ferida do corte..

.
.
Galhos se 
desprendem 
das árvores

despidos de força..
.
.
Afundo os pés 
nas folhas secas que 
atapetam o chão,

e sufoco-os
.
.até a morte..

.
.



**Trabalho fotográfico de Lucien Clergue**

Arte fotografica de Henri Denders**

"Agora sinto-te nessa tontura imensurável do nascer, rodopiando o rosto para um espelho sem reflexo, 

agitando o corpo que consome das luzes coloridas da cidade pedindo versos." 

*Paulo Themudo*





ave maria

cheia de pétalas

o amor é contigo

bendita sejas

entre as mulheres

bandida é a fruta

entre teu ventre

e tuas pernas


Liria Porto*


Trabalho fotografico de José Antonio abreu de oliveira*


Nu negro, 1954 - by German Lorca**



Nesta minha caminhada, aprendi que os "holofotes" exacerbam a fogueira das vaidades, atiçam os egos exibicionistas, e fazem com que as pessoas se mostrem como realmente são!!!

Brihsa*

Trabalho fotográfico de Wojcieh Grzanka*


Que este mundo tão ligeiro, me traga a força necessária, a coragem, a sabedoria, e sobretudo me encha de inspiração, sensibilidade e criatividade, enquanto eu aqui permanecer...Que assim seja!!!

Brihsa*



Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, 
encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, 
esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus 
cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens
dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar?

*Bernardo Soares, in 'Livro do Desassossego*

Arte do fotografo romeno Alin Ciortea*


Onde é que se pode encontrar teu proprio eu??

Sempre no mais profundo encantamento que experimentastes!

Hugo von Hofmannsthal*




**Arte fotográfica de Katya Kosa**


Pintura de Iberê Camargo**


Quanto tempo durará seu devaneio? - Consultou novamente o relógio. Outros dez minutos de vida desperdiçados (...) Quanto da vida eu perdi - pensou - simplesmente por deixar de olhar? ou por olhar e não ver?

Trecho do livro "Quando Nietzsche chorou" de Irvin  D. Yalom*


"Devia-se morrer de outra maneira"

**Arte fotográfica de Mehmet Ozgur**

Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pòlen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…


«Sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! O que eu disser soará fatal e inteiro!.»


Clarice Lispector, "Perto do Coração Selvagem*
***Arte de Laura Makabresku***


Às vezes

perigosamente

as veias coagulam

Não percebem:

viver é uma hemorragia calculada


*Fibrilações - Ana Hatherly*



***Arte de Laura Makabresku***
De qualquer modo, escrevi sobre uma rã que encontrei no jardim, com uma das pernas presa numa cerca de arame. Não podia se soltar. Eu tirei a perna dela da cerca, mas mesmo assim ela não podia se mover. Por isso eu peguei ela no colo e conversei com ela. Disse que eu também estava preso, que minha vida tinha ficado presa em alguma coisa. Conversei com ela durante um longo tempo. Finalmente, a rã saltou do meu colo e saiu saltando pela grama afora, e desapareceu num matagal. E eu disse a mim mesmo que ela era a primeira coisa de que eu já sentira saudade em minha vida.

- Charles Bukowski.

"O toque do sino dava-lhe um gozo estranho. Só podia ser que o diabo estivesse atrás dela, metendo-lhe aquilo pelo corpo. Queria fugir do pensamento, das imagens obscenas, mas as bichas eram vivas demais. Voltava sempre a missa com desejos infernais. Via Antônio Bento de perto, com aquela opa vermelha até os pés, e imaginava que ele fosse um padre e ela a rapariga do padre.(...)À tarde, a mesma hora, vinha-lhe a coisa. O corpo inteiro vibrando, a ânsia, a agonia, o frio pela espinha e D. Fausta caía para os lados aos gritos."

José Lins do Rego - In Pedra bonita*


**Arte do pintor surrealista Evgeni Gordiets**


Abaixo todos os dogmas religiosos e filosóficos - que não são mais que mentiras; a verdade não é uma teoria, mas sim um facto; a vida é a comunidade de homens livres e independentes, é a santa unidade do amor que brota das profundidades misteriosas e infinitas da liberdade individual.


*Bakunin*











Da espera....


Nada meu amor, que me digas, desfará a necessidade da tua espera. Enquanto o mundo é guerra, o medo 

é de não te ver chegar, me faz compor nós dois num desenho, numa letra sem pretensão...Espero que 

retornes, mesmo dizendo não ser pra sempre. Rabisque essa esperança, dessas que sempre citam coisas 

tolas de amor. Ninguém ás lerá se você as esconder entre nossos corpos entrelaçados, em beijos 

confessos 

naquilo que ninguém mais pode sentir.

*Arruda Bonffáh*



“A vida humana – na verdade, toda a vida – é poesia. Nós a vivemos inconscientemente, dia a dia, 

fragmento a fragmento, mas, na sua totalidade inviolável, ela nos vive”

Lou Salomé


***By Albert Joseph Pénot - 1910***


***Madona - Edward Munch***


Disse o corvo: - Nunca mais!!!
Edgar Alan Poe*